As contradições da imprensa

Após considerar o ex-presidente Lula ditador, jornalistas dizem que declarações de Bolsonaro não passam de liberdade de expressão

Por Filipe Matoso

Você provavelmente já viu ou ouviu falar sobre a entrevista do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) ao programa da Rede Bandeirantes CQC, exibido na última segunda-feira (28 de março). No vídeo, o parlamentar diz que filhos não são gays, pois tiveram um pai presente. Além disso, afirma que descendentes jamais teriam relacionamentos com mulheres negras, “pois isso seria uma promiscuidade e eles foram muito bem educados”, segundo Bolsonaro.

Entre as consequências, o parlamentar foi processado judicialmente pela cantora Preta Gil – Preta perguntou se ele aceitaria que os filhos namorassem mulheres negras. Na Câmara dos Deputados, Bolsonaro foi levado ao Conselho de Ética, por quebra de decoro parlamentar. O movimento na Casa é encabeçado pelo deputado Jean Willys (Psol-RJ), homossexual assumido.

Confira o vídeo:

Bem, o vídeo e a fala de Bolsonaro não são novidades para ninguém. Entretanto, fui surpreendido ao ver no Twitter (nesta segunda-feira) jornalistas renomados defendendo o parlamentar carioca. Segundo eles, “Bolsonaro nada mais fez que exercer a liberdade de expressão”.  E foram além, ao dizerem que vivemos em uma república e isso tem que ser aceitável. Fiquei chocado! Leia a matéria na íntegra

Quer dizer, espalhar preconceito, falar que filhos não são gays por terem um pai presente e que jamais se relacionariam com negras por serem bem educados é liberdade de expressão. Ou seja, homossexuais não tinham os pais em casa e quando uma pessoa é bem educada ela somente se relaciona com brancos. É Bolsonaro, sua cabeça ficou presa lá na Ditadura Militar. Período no qual “tínhamos segurança e respeito pela família”.

Contradições

Em que lugar o Blog do Filipe quer chegar? Você já viu o vídeo, ouviu comentários e sabe quem é contra e a favor das declarações de Bolsonaro. Bem, como a gente faz um trabalho de ver como está o trabalho da imprensa, vamos lá. Coincidência, ou não, as mesmas pessoas (jornalistas) que defendem a liberdade de expressão como direito utilizado por Jair Bolsonaro, chamaram Lula de ditador há algum tempo atrás.

Pode ser que você não se lembre, mas o ex-presidente foi taxado de ditador após declarar ao portal Terra não ser à favor de tudo o que sai na imprensa. Nossa, isso se tornou um reboliço e a polêmica foi grande. “Macacos-velhos” do Jornalismo disseram que era o retorno do AI-5, da Ditadura Militar e o “imperialismo de Lula mostrando a verdadeira face”. Veja o comentário do Blog do Filipe sobre o tema na época, acessando o link ao lado:  http://bit.ly/eM1NQd

Lula foi chamado de ditador por jornalistas após dizer não concordar com tudo o que sai na imprensa

Ora, quanta ironia. Quer dizer, Lula virou ditador por criticar a imprensa e Jair Bolsonaro usou o direito de liberdade de expressão para ofender homossexuais e negros. Sou contra esse Jornalismo que adora criticar o tempo inteiro, mas não consigo entender como o preconceito é tão bem aceito por várias pessoas.

A deputada Manuela d’Ávila (PCdoB-RS) chegou a publicar no Twitter que temos o direito de sermos livres, mas nem por isso saímos fazendo sexo na rua. Na mesma linha de raciocínio, penso que temos o direito de ir e vir e nem por isso passamos com o carro por cima dos outros. Vou além. Não é porque podemos nos expressar de forma livre que também podemos ofender, desrespeitar e humilhar outras pessoas.

Não preciso publicar aqui os nomes dos jornalistas que apóiam Bolsonaro, pois o interesse do post não é iniciar um bate-boca sobre quem está certo e quem está errado. O foco do texto é mostrar que nós da imprensa nos atrapalhamos ao falarmos sobre a liberdade de expressão, tema tão difícil de ser debatido.

De fato, se a gente busca as liberdades de imprensa e expressão, devemos reivindicá-las de forma completa. Tenho essa dúvida na cabeça. Como sou a favor da liberdade de expressão, mas sou contra quem a utiliza para demonstrar preconceito. Então quer dizer que eu não sou totalmente favorável à liberdade de expressão?

Por criar essa dúvida, percebo como é difícil tratarmos esse tema e julgar as pessoas pelo que elas fazem. Isso não quer dizer que defendo Bolsonaro. De forma alguma! Sou contra as declarações do parlamentar e o preconceito dele para com negros e homossexuais. Vale ressaltar que o post foi direcionado à imprensa e não às declarações do deputado.

Publicado em 04/04/2011, em Política e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. 5 Comentários.

  1. Felipe, primeiramente quero te da parabens!
    Seu blog está cada vez trazendo discussões interessantíssimas.
    Não tenho muito o que falar porque você ja deve saber minha opinião. Que não é muito diferente da sua.
    Mesmo assim, eu fico revoltado quando vejo que o Brasil, infelizmente, está nessa situação. E não é só ele que pensa assim!
    Mas sabe o que é pior de tudo? É que as pessoas apoiem isso. E principalmente a imprensa.
    Quando eu vi esse vídeo eu pensei ‘Puts, essa cara ta ferrado’. Mas não.
    Eu vi uma galera defendendo ele, por twitter, blogs, sites, entrevistas. E agora, pra piorar, a imprensa ficou do seu lado? (Não a imprensa como um todo, claro).
    Uma pessoa que vive ‘na era do regime militar’ e que ofende gays e negros desse jeito não merece, ao menos, ser escutada. E de verdade, o que mais me revolta é saber que nada vai acontecer, infelizmente. Toda essa repercussão ta acontecendo porque o vídeo é recente. Mas depois, vai passar. Essa é a política no Brasil.

  2. Assino em baixo, Andrew. Quando vi a matéria, pensei que ele seria massacrado pela opinião pública. No entanto, há muitas pessoas que estão o defendendo e isso é inaceitável. Não concordo, em hipótese alguma, com preconceito, seja ele como for praticado.

    Além disso, ver jornalistas defendendo a liberdade de expressão, “praticada por Bolsonaro”, é inaceitável.

    Grande abraço!

  3. Então, estava super em falta com esse blog, não é? Sempre entro aqui leio os textos e acabo por ñ comentar, mas hj, por mais que ñ tenha tempo pq a correria é grande, ñ posso deixar de registrar a minha opinião:

    Concordo com vc em gênero, número e grau, Filipe.

    A imprensa, em mtos casos se mostra hipócrita, e neste não é diferente. Lembro que li um texto da Cynara Menezes a respeito dessa imprensa que tanto criticou Lula e agora, se opõe à ‘abertura’ dos arquivos da ditadura militar. (Link: http://www.cartacapital.com.br/politica/quem-tem-medo-da-verdade)

    Agora, percebo semelhança entre o texto de vcs e me pergunto até onde a imprensa se corrompe por interesses? Pois aos meus olhos, defender atitudes como as de Bolsonaro tem um objetivo muito maior que o de “defender” a democracia, mas o de fazer valer direitos de quem lhes interessa.

    Abraço pra ti, meu irmão. Teu blog é massa!

  4. Marc Arnoldi

    Pelo seu post aqui e pelo que escreveu no Twitter, você entendeu bem o problema aí. Ninguém (ou pelo menos não eu, nem o Noblat, nem outros que li por aí) está defendendo o Bolsonaro, ou as idéias dele. Andrew avalia que “a imprensa” teria ficado ao lado do Deputado, confesso não ter lido nenhuma matéria o defendendo.

    A questão é o princípio da liberdade de opinião. Se for considerado realmente como princípio, então não se pode censurar alguém pelo simples fato de não concordar com o que ele diz. Mesmo se ele proferir absurdos. Mesmo se queremos sair às ruas para protestar contra suas declarações. Gritar, repudiar, manifestar, indignar-se é legítimo. Já calar, cassar, fuzilar (como vários escreveram nos blogs e tweets), para mim, é usar exatamente o mesmo tratamento que foi dado aos adversários na ditadura militar. Ou seja, é equivaler-se a esta.

    Sua citação do exemplo da frase do Lula é válida. Quem não gostou reagiu, esperneou, gritou, manifestou. Mas não me lembro ter visto ninguém pedindo a cassação do mandato dele por isso. Nem mesmo quando o mesmo avaliou que “a crise – de 2009 – é coisa de gente branca com olhos azuis”. Não estou acusando o Lula de nada aqui, mas você há de convir que preconceito é um termo muito subjetivo. Quando o Presidente da República estimou que “Pelotas é um polo exportador de veados”, eu sei perfeitamente que ele brincava, e jamais usaria isto para supor que Lula é homofóbico. Mas a frase é si em um preconceito, querendo ou não. Os veados de Pelotas ou de Campinas, os preguiçosos da Bahia ou os arrogantes de São Paulo são preconceitos, qualquer que seja a intenção do autor.

    A liberdade de opinião não tem limites quando se trata só de opinião. Quero dizer, se um dia Bolsonaro ou qualquer outro aparecer na TV mandando espancar ou matar gays ou negros, já não seria opinião, seria apologia. E não haveria o que defender. Mas enquanto ficar na opinião…

    Dei no twitter um exemplo, mas posso aqui dar outro. De vez em quando, leio o blog do Delúbio Soares. Execro quase tudo que ele escreve. Considero ele um autoritário, anti-democrático, hipócrito, preconceituoso, e nem falo de sua ficha policial. Mas faço aqui o juramento seguinte: se um dia, por qualquer razão (que não seja apologia explícita) o blog dele for tirado do ar, ele pode contar com minha assinatura na petição de indignação.

    Já usei muito espaço aqui, mas quero rapidamente lembrar uma situação um pouco parecida, na França. A Frente Nacional, partido de extrema-direita (e bota extrema-direita nisso) era um insignificante partidinho que fazia suas assembleias extraordinárias anuais num restaurante nos arredores de Paris nos anos 70. Seu líder, Jean-Marie Le Pen, era um personagem que proferia, quando tinha a ocasião, enormidades sem tamanho. Bolsonaro é fichinha ao lado. Ele, por exemplo e até hoje, é negacionista, ou seja, prova com “documentos” e tudo que não houve holocausto, que se alguns judeus morreram na 2e guerra, não passou de alguns milhares, e olhe lá. Neste assunto, ele leva o deboche a fazer piadinhas e trocadilhos em entrevista (um ministro judeu do Governo Mitterand se chamava Durafour – algo como “duro-ao-forno”. Ele “brincou” de chamá-lo numa entrevista de rádio de “Durafour-crématoire” – duro-ao-forno-crematório (meio de exterminação dos judeus em vários campos nazistas).

    O que fizeram com ele ? Manifestações, processos, ameaças. Cassar, não podiam, ele não era parlamentar. Organizarm, publicamente, um boycott. Nenhuma TV ou rádio fazia entrevista com ele. Nem na campanha eleitoral. Diabolizar Le Pen. Ser “lepenista” era um insulto pesado. As reuniões do partido eram proibidas pelas autoridades “por ameaça à ordem pública”.

    Você já sabe o resultado, não ? Saindo de 0,4 % de votos em 1974, Jean-Marie Le Pen, crescendo a cada eleição – sem mídia nenhuma – chegou ao segundo turno da eleição presidencial em 2002, eliminando o candidato da esquerda. Hoje, sua filha Marine está cotada em reeditar a performance na eleição do ano que vem.

    Hoje, a imprensa e o mundo político francês assume que a tática foi errada. Ao invés de amordaçar a FN, tinha ao contrária que mostrar suas idéias, seu programa e provar o quanto ele seria nefasto. Mas fazendo deles um diabo, atrairam a curiosidade dos que se reconheceram numa ou outra idéia absurda. Racismo, homofobia, xenofobia são conceitos que se desenvolvem no escuro, no segredo da noite, na intimidade dos lares. E não tem nada mais íntimo e segredo que a urna.

  5. Daniel Barros

    Bom, o que realmente me assusta não é só o fato de as pessoas apoiarem Bolsonaro e sim de uma pessoa com uma mente tão pequena estar no poder. Pessoas assim tendo o controle político de nosso país é algo assustador. Enquanto a imprensa, também faço parte dela, mas percebo que muitos jornalistas tem um ego muito inflado, se acham deuses e donos da verdade. Isso também me assusta. Pessoas tão tacanhas e irracionais formando a opinião pública do país. Acredito que já citei esta canção antes, mas ela é válida novamente. Como a banda de Reggae de Brasília, Natiruts já dizia, “quem planta preconceito, racismo e indiferença, não pode reclamar da violência”. É isso meu povo, abram os olhos, não aceitem calado, não deixem que a imprensa fale o que você deve aceitar ou não como verdade. Eles não podem pensar por você. E se o caso de Bolsonaro não der em nada, façamos alguma coisa. Vamos fazer o governo ouvir que não aceitamos mais esses tipinhos de pessoas representando a gente mundo a fora. O Brasil somos nós, nossa história, nossa voz!

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